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Mostrando postagens com o rótulo prosa

sem ana, blues - caio fernando abreu

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Quando Ana me deixou - essa frase ficou na minha cabeça, de dois jeitos - e depois que Ana me deixou. Sei que não é exatamente uma frase, só um começo de frase, mas foi o que ficou na minha cabeça. Eu pensava assim: quando Ana me deixou - e essa não-continuação era a única espécie de não continuação que vinha. Entre aquele quando e aquele depois, não havia nada mais na minha cabeça nem na minha vida além do espaço em branco deixado pela ausência de Ana, embora eu pudesse preenchê-lo - esse espaço branco sem Ana - de muitas formas, tantas quantas quisesse, com palavras ou ações. Ou não-palavras e não-ações, porque o silêncio e a imobilidade foram dois dos jeitos menos dolorosos que encontrei, naquele tempo, para ocupar meus dias, meu apartamento, minha cama, meus passeios, meus jantares, meus pensamentos, minhas trepadas e todas essas outras coisas que formam uma vida com ou sem alguém como Ana dentro dela. Quando Ana me deixou, eu fiquei muito tempo parado na sala do apartamento, cerca...

brincar de amores possíveis

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não tenho mais idade para amores platônicos. era o que eu achava, mas amores platônicos já dizem tudo, são por si só autossuficientes. toda timidez do mundo pertence a mim, sem dúvidas. dizer um simples "oi" é mais difícil do que aprender a andar de bicicleta depois dos cinquenta. é claro que não falo de coisas impossíveis e sim de coisas difíceis. acho que devo ser a única pessoa da minha idade que não sabe andar de bicicleta ainda. não que eu me envergonhe disso, gosto de ser diferente nesse aspecto. não tenho mais idade para ficar suspirando pelos cantos. isso é até ridículo. não que eu me importe com o que os outros venham a pensar, sou eu que acho isso ridículo. que irônico! as pessoas desejam tanto um novo amor. acho que não tenho vontade ou disposição para me preocupar com outro alguém no momento. sentir ciúmes, decepção, brigar por qualquer coisa e depois fazer as pazes é muito cansativo. simplesmente acho que não tenho mais idade para me apaixonar pelo meu professor ...

matrioska

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a cada matrioska retirada, uma camada de mim - que não sou eu - vai embora... uma versão de mim que não sou eu, mas que ainda faz parte do que eu sou, apenas para proteger a minha verdadeira eu - enquanto ela ainda existe - que está sozinha e assustada, com medo de se ferir e de sofrer outra vez... kauana costa 16/04/2019

do pesar

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como uma mão calejada de tanto manusear a enxada, eis meu coração calejado de se entregar ao amor. um dia, o peso da enxada faz a mão sucumbir ao esforço de manuseá-la. um dia, as decepções, as dores, as mentiras fazem o coração hesitar. e morre a espontaneidade. kauana costa 16/04/2019

nº 1

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- você está chateada com alguma coisa? - você percebeu? - não era pra eu ter percebido? desculpe, então... - na verdade, eu queria que um alguém em especial percebesse isso. você sabia, palavras doem, elas são como sementes... eu estava ali, ela não. aquele seu olhar distante tentando esconder uma dor bem lá no fundo... olhei-a mais uma vez. provavelmente ela falava dele. por que era tão difícil deixá-la voar? mas o que eu podia fazer? - desculpe ter prestado tanta atenção... - tudo bem, meu pai nunca iria perceber isso. e saiu. por um instante meu coração se tranquilizou. não era outro cara. mas mesmo assim ela voou. um voo longo. distante. talvez fosse esse o nosso destino. eu não era tão corajoso nessa cadeira de rodas. kc 2012

o jardim

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- acompanha-me?  perguntava uma vozinha vinda do alto. pensava, devo estar ouvindo coisas, estou sozinha nesse jardim... e a voz mais alto insistia: - acompanha-me? olhava ao redor intrigada, será que ouvia vozes? não... certamente deveriam ser crianças correndo pelos arrabaldes. - acompanha-me? irritou-se, de onde viria aquela voz - agora sabia que não era de criança, mas de um homem. estaria sendo assediada? apavorava-se ao pensar nessas coisas... estava sozinha no jardim, ela e o balanço. - acompanha-me? teu medo não me assusta... eu também não te assustarias se para mim você olhasse. não sentia medo, não mais... e tentava atinar de onde viria aquele som tão suave. olhou a sua esquerda e nada viu, olhou a sua direita e também nada viu. poderia olhar para o chão, mas o que veria além de seus pés? viria de cima? - olha... a voz lhe convidava. olhou e reconheceu na figura que viu a pessoa que procurava a vida toda...